Vinícius de Morais
"Não tem sido poucas as tentativas de definir o que é
poesia...
O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a
poesia é a mais humilde das artes. E, como tal a mais heróica, pois
essa circunstancia determina que o poeta constitua a lenha
preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de
saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no
saguão, ou o último long-playing em alta fidelidade, ou a
própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome...
O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas
contradições e desses contrários, que procura constantemente
esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único
criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de
uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e
mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout
court.
Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive nos vórtices dessas
contradições, no eixo desses contrários...
E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à História,
dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de
santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta e´, ai dele,
um ser em constante busca de absoluto e, socialmente um permanente
revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a
poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das
artes, um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal
como está constituída.
Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta
e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao
verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da
vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua
longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem
em amor e tranquilidade."
pg, 101 a 103, Para viver um grande amor/ por Vinícius de Morais
- Editora Olympo - 1984.
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